10º Domingo depois de Pentecostes
- Fraternidade São Nicolau

- 2 de ago.
- 6 min de leitura
Os Lírios do Campo
PRÆLEGENDUM (Sl. 83, 2.4)
Quão amável, ó Senhor, é vossa casa,
quanto a amo, Senhor Deus do universo!
Mesmo o pardal nela encontra abrigo,
e a andorinha ali prepara o seu ninho.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre,
e pelos séculos dos séculos. Amém.
EVANGELHO de Jesus Cristo, segundo São Mateus 4, 24-34
Naqueles dias, disse Jesus: Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou há-de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a riqueza.
Portanto vos digo: Não vos preocupeis (demasiadamente), nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido?
Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e contudo vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas?
Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida?
E porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam.
Digo-vos todavia que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.
Se pois Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé !
Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?
Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas.
Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.
Não vos preocupeis, pois, demasiadamente, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.
Glória à Ti, Senhor! Glória à Ti!

HOMILIA
para o 10º Domingo de Pentecostes
Padre Renato Souza, Fraternidade Ortodoxa São Nicolau
Manaus/AM, 02 ago. 2026
Amados irmãos e irmãs em Cristo,
Hoje somos convidados a revisitar o Sermão da Montanha da obra de Mateus, discurso célebre de Jesus que, geralmente, pensamos que se resume às bem-aventuranças, como as rezamos ao início de nossa liturgia, mas, na verdade, o famoso sermão ocupa três capítulos do evangelho de Mateus, a saber, o 5, o 6 e o 7.
Se Moisés desce o Sinai portando as tábuas da Lei, que deu origem à Torá, parte mais eminente da Tanakh, principal escritura sagrada do Judaísmo e cuja maioria dos livros serve de base para o nosso Antigo Testamento, para o evangelista, Jesus é o novo Moisés, o novo legislador e a nova Lei da Nova Aliança, por isso Ele não desce o monte com “novas” tábuas, mas Ele mesmo recita a nova Lei, ou seja, ele recita a Ele mesmo.
Pois bem, o trecho que nos interessa aqui está no cap. 6, quando Jesus lembra aos seus ouvintes os perigos de uma certa dualidade entre viver em Deus e com Ele e viver submetido ao apego exagerado ao dinheiro. “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24).
No pensamento de Cristo, não é possível ser fiel a dois senhores tão contrários: se de um lado temos a Jesus de Nazaré, o Deus humanado que nasce em uma família simples, cresce na periferia de seus país e acolhe aqueles que os poderes político e religioso excluem, do outro temos o Dinheiro, que em algumas traduções permanece com a palavra aramaica “mamom” (dinheiro, riqueza), que com o passar do tempo e das traduções ganhou uma personificação, como se fosse um demônio ou um deus pagão.
À continuação do evangelho de hoje, Jesus mesmo responde afirmando que o Pai do céu cuida de seus filhos e filhas provendo o necessário para a nossa vida: o que comer, o que beber, o que vestir, como resolver nossas preocupações. Para Jesus, o que realmente importa: a justiça do Reino de Deus (Mt 6,33).
Às vezes nos consumimos presos a essas realidades, que são importantes, são necessárias para uma vida digna, mas para quem é discípulo de Cristo, essas coisas não podem se tornar o centro e a razão de nossa vida. Daí o perigo de se curvar ao dinheiro. Essas realidades, comer bem, beber bem, vestir bem, demandam recursos. Por isso, o Divino Mestre usa o exemplo de Salomão, o rei de Israel que levou seu povo ao patamar mais elevado. Jesus lembra que, apesar de todo o luxo e riqueza, o rei mais sábio da história não conseguiu superar as flores do campo em beleza, ou as aves do céu em sua liberdade.
A sabedoria do Eclesiastes, já no Antigo Israel vai lembra o povo judeu que, apesar de todo o trabalho, todo o esforço em buscar o sustento necessário para viver, tudo isso pode se tornar ilusão, pode perder o sentido. O autor lembra também de um detalhe: pode-se trabalhar tanto, deixar um grande legado, mas, quem herdar tudo isso, todo esse legado, vai ter o mesmo compromisso, o mesmo esforço em mantê-lo? Por isso mesmo, não será um esforço em vão? (Ecl 2,11.18).
Quantas fortunas, quantos impérios de ontem e de hoje não vemos ruir após a morte de seus fundadores porque seus herdeiros não souberam dar continuidade! Da mesma forma, e aqui é bem oportuno o exemplo de Cristo em seu sermão, a figura de Salomão que herdou um reino fortificado de seu Pai Davi, mas, ao final de sua vida, ele e seus descendentes não conseguiram manter a unidade das tribos de Israel e o legado de Davi se divide entre os tronos, o de Israel ao norte e o de Judá ao sul.
Sem descuidar da dignidade de vida de nossas famílias, estejamos atentos em buscar a justiça do Reino, ou seja, a maior proximidade com o Pai do céu, como nos diz Jesus hoje. O Reino é eterno e nele, definitivamente, um dia, todas as nossas necessidades serão saciadas.
Sobre isso, vamos escutar o que nos disse São João Crisóstomo:
"Tendo agora, como vocês veem, ensinado em todos os aspectos a vantagem de desprezar as riquezas, tanto para a própria preservação das riquezas, quanto para o prazer da alma, para adquirir autocontrole e para garantir a piedade, Ele prossegue estabelecendo a praticidade desse mandamento. Pois isso se refere especialmente à melhor legislação, não apenas para ordenar o que é conveniente, mas também para torná-lo possível. Portanto, Ele também continua dizendo: "Não vos preocupeis com a vossa vida, com o que haveis de comer"...
Portanto, Aquele que deu o maior, como não dará o menor? Aquele que formou a carne que alimenta, como não dará o alimento? Por isso, Ele não disse simplesmente: "Não vos preocupeis com o que haveis de comer" ou "com que haveis de vos vestir", mas sim: "para o corpo" e "para a alma", visto que era a partir deles que Ele faria Suas demonstrações, prosseguindo Seu discurso por meio da comparação. Ora, a alma Ele deu de uma vez por todas, e ela permanece como está; mas o corpo cresce a cada dia".
(Homilia sobre o Evangelho de Mateus 21)

IMMOLATIO, da Divina Liturgia Galicana
É verdadeiramente digno e justo, equitativo e salutar,
render-Vos graças em todo tempo e em todo lugar,
Senhor santo, Pai todo-poderoso, Deus eterno, inefável, indescritível, invisível e imutável, pelo Cristo nosso Senhor. Nos céus e na terra, nada escapa ao vosso governo
e à vossa divina providência que cumula toda criatura.
Cuidais das aves do céu, envolveis de esplendor as flores dos campos,
vigiais atentamente sobre a vida de todo homem e mulher
desde o ventre materno até ao sepulcro.
Dais a cada um, em tempo oportuno, o alimento, a beleza, a sabedoria e os dons;
revestis toda criatura de uma glória e de uma magnificência maiores do que as de Salomão. Abraçando também num mesmo olhar as essências invisíveis,
vestis da vossa luz os anjos, os arcanjos, os querubins e os serafins que cantam,
proclamam e louvam sem cessar o vosso esplendor, dizendo-Vos:
Santo, Santo, Santo, Senhor, Deus do universo!
O céu e a terra proclamam a tua glória.
Hosana nas alturas!
Bendito o que vem em nome do Senhor!
Hosana nas alturas!




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