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4º Domingo depois da Páscoa

O pobre Lázaro



PRAELEGENDUM

Cristo ressuscitou dos mortos,

pela morte venceu a morte,

aos que estavam nas sepulturas deu vida.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,

agora e pelos séculos dos séculos. Amém.



📖 EVANGELHO de Jesus Cristo, segundo São Lucas 16, 19-31

Naqueles dias, disse Jesus aos seus discipiculos: Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho fino, e todos os dias se banqueteava esplêndidamente.

Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, desejando saciar-se com as migalhas que caiam da mesa do rico... e até os cães vinham lamber-Ihe as chagas.

Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado.

Quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio.

Então exclamou; Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nesta chama.

Abraão disse-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; por isso ele é agora consolado, e tu és atormentado.

Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós, não podem, nem os daí podem passar para nós.

O rico disse: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos, para que os advirta disto, e não suceda virem também eles parar a este lugar de tormentos.

Abraão disse-lhe: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos.

Ele, porém, disse: Não basta isso pai Abraão, mas, se algum dos mortos for ter com eles, farão penitência.

Ele disse-Ihe: Se não ouvem Moisés e os profetas, tão-pouco acreditarão, ainda que ressuscitasse algum dos mortos."


O pobre Lázaro. Feodor Bronnikov, 1886 Galeria Regional de Arte, Tver.
O pobre Lázaro. Feodor Bronnikov, 1886 Galeria Regional de Arte, Tver.

HOMILIA

Mons. Jonas, exarca

03 de maio de 2026

Manaus, Amazonas


Neste quarto domingo depois da Páscoa, a Liturgia nos coloca diante de um espelho que não reflete a nossa aparência, mas as nossas escolhas. Ouvimos a parábola do Rico e do pobre Lázaro, e somos tentados a pensar que se trata de uma história sobre dinheiro. Mas, se olharmos com os olhos da fé, veremos que é, antes de tudo, uma história sobre a visão. O Rico não foi condenado por ser rico; ele foi condenado porque, em sua fartura, tornou-se cego. Ele tinha um banquete à mesa, mas não via o homem caído à sua porta.


Quero aqui compartilhar uma reflexão da abadessa Herrade de Landsberg (1130-1195), da Abadia de Hohenburg, Montanhas Vosges (Alsácia, França), em seu Hortus Deliciarum (O Jardim das Delícias): ao contemplar esta cena do Evangelho de hoje, não via apenas uma punição divina, mas a manifestação de um "abismo" que o homem cria enquanto ainda vive. Para Herrade, o Rico tinha construído um jardim de delícias apenas para si, onde a caridade não podia ser plantada. Enquanto ele se vestia de púrpura, Lázaro vestia as feridas de sua própria solidão. A tragédia não é que eles estivessem separados na morte; a tragédia é que eles viviam em mundos separados enquanto caminhavam sobre a mesma terra.


Mas, meus irmãos, hoje a Palavra de Deus nos oferece o antídoto para esta cegueira.


Na primeira leitura, o livro dos Atos dos Apóstolos (4,32-35) nos mostra a Igreja primitiva, o modelo de Igreja: “A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma”. O que aconteceu ali? O abismo foi preenchido. O que era "meu" tornou-se "nosso". O egoísmo que faz o Rico ignorar o pobre Lázaro foi substituído pela partilha que faz do estranho um irmão. A Ressurreição de Jesus não foi apenas um evento que aconteceu a Ele; foi um evento que destruiu a barreira entre o céu e a terra e, consequentemente, entre cada um de nós.


Como podemos viver isso hoje, num mundo de telas e isolamentos?


O apóstolo Tiago (1, 16-21) nos dá a chave na segunda leitura: “Deixem toda a imundície e toda a má conduta”. A "imundície" aqui não é apenas um erro moral qualquer; é a sujeira da indiferença, é a crosta que se forma em nosso coração quando paramos de olhar para o lado. Tiago nos convida a acolher com mansidão a "Palavra que Deus planta em nós".


A Palavra de Deus é como uma semente no jardim: este "Jardim das Delícias" que a abadessa Herrade tanto valorizava. Se o nosso coração for um jardim onde só cresce o arbusto do "eu", do “ego”, do "meu conforto", do "meu tempo", não haverá espaço para o Lázaro que está à nossa porta.


E quem é o Lázaro hoje? Talvez seja o vizinho esquecido, o colega de trabalho que pede atenção, o pobre que encontramos na calçada ou aquele irmão que precisa de uma palavra de consolação e a quem ignoramos porque estamos "ocupados demais" com o nosso próprio banquete.


Meus caríssimos, não podemos vir ao Altar do Senhor para comungar o Seu Corpo – Aquele que Se entregou por todos – e sair daqui com o coração fechado. A Eucaristia que celebramos hoje é o banquete que vence o banquete do Rico. Enquanto o Rico comia sozinho, nós comungamos o Pão que nos une.


Que a Ressurreição do Senhor não seja apenas uma memória, mas uma força que remove as pedras dos nossos sepulcros pessoais. Que tenhamos a coragem de olhar para a nossa "porta" – seja ela física ou digital – e ver quem ali está. Que o Espírito Santo, que plantou em nós a Palavra da Verdade, nos dê a graça de transformar a nossa diversidade de dons em um único serviço de caridade.


Não esperemos o fim da vida para atravessar o abismo. O abismo é atravessado agora, com um gesto de partilha, de caridade, com um olhar de misericórdia, com a decisão de viver, como os primeiros cristãos, com um só coração e uma só alma.


A Ele seja o louvor, a honra, e glória e a adoração pelos séculos dos séculos. Amém.



A Parábola do Rico e do Pobre Lázaro,

segundo Herrade de Landsberg (1130-1195),

monja e abadessa na Abadia de Hohenburg, Montanhas Vosges, Alsácia, França


Herrade mostrará seus talentos na da formação das monjas, queria que elas estivessem abertas a todas as artes e conhecimentos. Ela continuou a ação iniciada nesse sentido por Relinde, sua predecessora. Para isso, Herrade se cerca de conselhos, constrói uma importante biblioteca, além de um scriptorium. Ela forja uma ferramenta, o 'Hortus Deliciarum', o Jardim das Delícias.


Herrade quis criar para edificação e instrução de suas monjas uma espécie de enciclopédia dos diversos saberes de seu tempo. Assim foi escrito, sob sua direção, o Hortus, um volumoso manuscrito composto por 255 folhas de pergaminho de grande formato (53cm x 37cm) às quais foram adicionadas 69 folhas pequenas. O Hortus foi embelezado com 344 miniaturas, muito finamente desenhadas e coloridas. A parte desenhada foi cerca de 25% do todo. Composto por textos bíblicos, trechos históricos e tratados científicos, o Hortus abordava os mais diversos assuntos. O Hortus certamente se baseia principalmente em autores cristãos, mas também contém detalhes de outras culturas. Para realizar esta elaboração, Herrade trabalhou em colaboração com as outras abadias da Alsácia, Munster.


Um dos importantes registros do Hortrus, é a Parábola do Rico e do Pobre Lázaro.


O Banquete dos Ricos Maus (Lc 16, 19-21)


A primeira aquarela de Herrade nos apresenta uma cena de banquete. O homem rico é representado como um rei ou imperador do século XII. Ele usa uma coroa e está vestido de vermelho, de acordo com o texto de Lucas. Sua esposa e três amigos o acompanham em sua refeição. A mesa é enfeitada com uma toalha e os convidados dividem o pão e um prato de peixe. As refeições são servidas em copos de apoio. As facas têm entalhes, sem dúvida para poder picar melhor nos alimentos. A bebida é servida em taça de madeira, com borda de metal.

Na entrada, sob uma grande cortina levantada, perto da porta com acessórios ornamentados, Lázaro está apenas vestido com uma tanga, está sentado no chão, com o corpo coberto de feridas. Dois cachorros lambem as pernas do pobre mendigo.


A morte do rico e a de Lázaro (Lc 16, 22)


O homem rico morre em sua bela casa, em sua cama. A cama parece ser colocada em quatro colunas elaboradas, e o homem tinha um banquinho para subir em sua cama. A seus pés, sua esposa enlutada cruza as mãos sobre o peito. Um amigo lamenta enquanto puxa a barba. Já dois diabinhos, fazendo caretas, agarram a alma do falecido, que escapa de sua boca. O da direita está armado com um garfo com três dedos em forma de gancho!

O pobre Lázaro morre sozinho, no chão, simplesmente encostado a uma rocha. Ele parece sereno. Dois anjos estão inclinados sobre ele, o primeiro já está segurando a alma de Lázaro em suas mãos.


Lázaro no Céu e o Rico no Inferno (Lc 16, 23-24)


A imagem do Paraíso de Herrade pode surpreender: Lázaro está sentado no colo de Abraão, como uma criança pequena. Abraão está sentado em um trono magnífico, sob uma bela arcada semicircular. A arcada repousa sobre duas colunas cilíndricas que parecem mármore. Os capitéis são esculpidos e ostentam torres românicas.

O inferno é aqui reduzido a um imenso fogo, onde o rico para mostrar a sua sede, compreensivelmente, aponta para a língua. Herrade respeita o texto de Lucas nos mínimos detalhes. Muito realista.


Abraão explica ao homem rico que sua conduta arrogante e opulência egoísta o levaram à sua situação atual. Ele acrescenta que um grande abismo o impedirá para sempre de se juntar a Lázaro no 'seio de Abraão'.

O rico então pede a Abraão que envie Lázaro para avisar seus cinco irmãos para que evitem seu destino. E Abraão se recusa, julgando que o ensino de Moisés e dos Profetas é suficiente para salvar os homens.


(No Hortus, Herrade descreve o Inferno com ricos detalhes).



🙏 ORAÇÃO


Ó Deus, Pai de toda a luz, que pela Palavra da verdade nos regenerastes e nos chamastes a ser as primícias da Vossa criação: dai-nos um coração que acolha com mansidão a Palavra implantada, capaz de nos salvar. Afastai de nós, pelo poder da Vossa Ressurreição, toda a impureza e a dureza que nos separa do irmão que jaz à nossa porta. Fazei que a Vossa Igreja, como nos primórdios, viva com um só coração e uma só alma, partilhando os bens da terra e testemunhando a alegria do Vosso Reino. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.




 
 
 

1 comentário


bhcesarino
bhcesarino
04 de mai.

Excelente homilia e reflexão para nós caminhantes na fé .

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