8º Domingo depois de Pentecostes
- Fraternidade São Nicolau

- 19 de jul.
- 5 min de leitura
O Santo de Deus
PRÆLEGENDUM (Sl 47, 10-12)
Ó Deus, a Vossa misericórdia está no Vosso templo.
Vosso Nome e o Vosso louvor se estendem até os confins da terra.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre,
e pelos séculos dos séculos. Amém.
EVANGELHO de Jesus Cristo, segundo São João 6, 55-69
Então Jesus disse:
— Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, vocês não terão vida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é a comida verdadeira, e o meu sangue é a bebida verdadeira. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele. O Pai, que tem a vida, foi quem me enviou, e por causa dele eu tenho a vida. Assim, também, quem se alimenta de mim terá vida por minha causa. Este é o pão que desceu do céu. Não é como o pão que os antepassados de vocês comeram e mesmo assim morreram. Quem come deste pão viverá para sempre.
Jesus disse isso quando estava ensinando na sinagoga de Cafarnaum.
Muitos seguidores de Jesus ouviram isso e reclamaram:
— O que ele ensina é muito difícil! Quem pode aceitar esses ensinamentos?
Não disseram nada a Jesus, mas ele sabia que eles estavam resmungando contra ele. Por isso perguntou:
— Vocês querem me abandonar por causa disso? E o que aconteceria se vocês vissem o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito de Deus é quem dá a vida, mas o ser humano não pode fazer isso. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida, mas mesmo assim alguns de vocês não creem.
Jesus disse isso porque já sabia desde o começo quem eram os que não iam crer nele e sabia também quem ia traí-lo.
Jesus continuou:
— Foi por esse motivo que eu disse a vocês que só pode vir a mim quem for trazido pelo Pai.
Por causa disso muitos seguidores de Jesus o abandonaram e não o acompanhavam mais. Então ele perguntou aos doze discípulos:
— Será que vocês também querem ir embora?
Simão Pedro respondeu:
— Quem é que nós vamos seguir? O senhor tem as palavras que dão vida eterna! E nós cremos e sabemos que o senhor é o Santo que Deus enviou.
Glória à Ti, Senhor! Glória à Ti!

HOMILIA
para o 8º Domingo de Pentecostes
Padre Renato Souza, Fraternidade Ortodoxa São Nicolau
Manaus/AM, 19 jul. 2026
Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Neste domingo, o 8° após Pentecostes, a nossa Igreja nos propõe uma reflexão acerca do Santo de Deus, expressão que encontramos na profissão de fé de Pedro (Jo 6,69). O evangelista lembra que não é fácil seguir Jesus e seus ensinamentos, de fato, no trecho do Evangelho que acabamos de ouvir, após o final do sermão eucarístico de Cristo (Jo 6,22-59), os próprios discípulos reconheceram essa dificuldade e, um pouco mais adiante, o autor sagrado destaca que “muitos discípulos voltaram atrás, e já não andavam com Jesus” (Jo 6,66).
Assim é a vida em comunidade, na paróquia, na Igreja: nem sempre encontramos de Cristo ou dos pastores de almas palavras bonitas, às vezes, recebemos cobranças, "puxões de orelha", chamadas de atenção. Cristo, apesar de revelar um Deus amoroso e Pai de todos, em alguns momentos, apresentava exigências duras para quem quisesse ser seu discípulo e entrar no Reino dos Céus.
Essa postura de Cristo e, eventualmente daqueles que o representam na comunidade, pode afastar as pessoas... vejam, palavras duras, ou seja, exigências, chamadas a sairmos de nossas zonas de conforto e de nossos comodismos. Mas o Reino tem também suas exigências, suas realidades, que podem até mesmo nos escandalizar: “Isso escandaliza vocês?! E se vocês virem o Filho da Humanidade subir para o lugar onde estava antes?” (Jo 6,61-62).
“O Espírito é que dá a vida...” (Jo 6,63). Diante desse quadro, devemos confiar no Espírito e nos perguntar até que ponto essas “palavras duras” mexem conosco e nos convidam à um maior compromisso e engajamento com a minha comunidade de fé. Às vezes pensamos que já fazemos o suficiente, mas, como Pedro, somos chamados à uma profissão de fé, não só com palavras e sim com atitudes: “... tu és o Santo de Deus” (Jo 6, 69).
A Carta aos Hebreus nos lembra que Deus nos fala de muitas maneiras, de muitos modos (Hb 1,1). Modos esses que nem sempre são agradáveis, mas são necessários, assim como um pai e uma mãe que verdadeiramente amam seu filho e que dizem “não” para algo que o filho quer fazer ou quer para si, mas que não está certo. São palavras duras dos pais, duras, porém, necessárias para que o filho não se perca no erro.
Ou mesmo um professor que, preocupado não só com a transmissão do conhecimento, mas com a formação integral de seu aluno, precisa dar limites, ajustar o comportamento e ajudar a família na educação cidadã do aluno. Esse é um processo em que muitas vezes o estudante vai ouvir palavras duras do professor, mas palavras necessárias para o correto desenvolvimento do jovem.
Na segunda leitura, ouvimos o autor da Carta aos Hebreus apresentar a Cristo como o Filho mesmo de Deus, Aquele que conhece os segredos de Deus e aquele a quem Deus falou e anunciou. Jesus não se compara nem mesmo aos anjos pois Ele está acima deles. Esse Filho, esse Cristo, feito plenamente homem sem deixar de ser divino em Jesus de Nazaré
E é esse Deus humanado quem falará com os discípulos e que muitas vezes não agradará às pessoas e que diante de suas palavras, as pessoas simplesmente vão embora, como ouvimos no Evangelho de hoje. Quem somos nós que estamos aqui, nesse domingo pela manhã: os que vão embora diante das palavras de Jesus, ou quem como Pedro e como o autor da Carta aos Hebreus, reconhecem Jesus como o Santo de Deus e permanecem com Ele?
Amados, deixo vocês com essa reflexão de nosso querido São João Crisóstomo:
"Mas muitos dos discípulos, ao ouvirem isso, disseram: 'Esta palavra é dura'.
O que significa 'dura'? Áspera, trabalhosa, problemática. No entanto, Ele não disse nada disso, pois não falava de um modo de vida, mas de doutrinas, tratando continuamente da fé que há nEle. O que significa então 'dura'? É porque promete vida e ressurreição? É porque Ele disse que desceu do céu? Ou que era impossível ser salvo se alguém não comesse a Sua carne? Digam-me, essas coisas são 'duras'? Quem pode afirmar que sim? O que significa então 'dura'? Significa 'difícil de aceitar', 'transcender a sua fraqueza', 'causar muito terror'. Pois eles pensavam que Ele proferia palavras muito elevadas para o Seu verdadeiro caráter, palavras que estavam acima d'Ele. Portanto, disseram: 'Quem pode ouvi-la?' Talvez se justificando, já que estavam prestes a partir."

Ó Deus, fonte de toda Sabedoria,
que desde o princípio preparastes o caminho da nossa salvação através do Vosso Filho, concedei que, ao escutarmos as Suas palavras de vida eterna,
possamos nutrir o nosso espírito com o Pão que nos sustenta
e conformar as nossas vidas ao Vosso desígnio.
Que a Vossa graça, que nos convoca hoje para o Vosso templo,
nos torne discípulos atentos e testemunhas da Vossa presença no cotidiano do mundo.
Por Jesus Cristo, Vosso Filho, nosso Senhor,
que vive e reina convosco, na unidade do Espírito Santo,
pelos séculos dos séculos. Amém.
(Oração da Coleta, da Divina Liturgia de São Germano de Paris)




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