Estamos muito ocupados e distraídos

O Grande Banquete Eucarístico


Neste 2º Domingo após o Pentecostes, nossa Igreja celebra O Banquete Eucarístico.

Reze e medite conosco.

📖 Leitura do Evangelho de Jesus Cristo, segundo São Lucas 14, 14-24.


Naquele tempo, contou Jesus esta parábola: “Certo homem estava preparando um grande banquete e convidou muitas pessoas. Na hora de começar, enviou seu servo para dizer aos que haviam sido convidados: ‘Venham, pois tudo já está pronto’.

“Mas eles começaram, um por um, a apresentar desculpas. O primeiro disse: ‘Acabei de comprar uma propriedade, e preciso ir vê-la. Por favor, desculpe-me’.

“Outro disse: ‘Acabei de comprar cinco juntas de bois e estou indo experimentá-las. Por favor, desculpe-me’.

“Ainda outro disse: ‘Acabo de me casar, por isso não posso ir’.

“O servo voltou e relatou isso ao seu senhor. Então o dono da casa irou-se e ordenou ao seu servo: ‘Vá rapidamente para as ruas e becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os mancos’.

“Disse o servo: ‘O que o senhor ordenou foi feito, e ainda há lugar’.

“Então o senhor disse ao servo: ‘Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha casa fique cheia. Eu lhes digo: Nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete’”.


Glória a Ti, Senhor! Glória a Ti!

🔊 Reflexão sobre o Banquete Eucarístico

de nosso bispo Jonas


A parábola do Grande Banquete tem uma lição simples para nós.

Estamos muito ocupados. Estamos muito distraídos. A rotina de nossa vida cotidiana turva nossa visão e compreensão sobre o que é essencial. Não nos consideramos dignos das coisas celestes...

O banquete celestial, como o descreve Jesus na sua parábola, está posto aqui e agora. Não o vemos ou não o percebemos pois estamos muito ocupados para aceitar o convite de entrar pela porta do banquete e tomar lugar.

Por um lado, não sabemos para onde olhar ou o que olhar, visto que são tantas as ofertas. Por outro, fomos ensinados que o Reino dos céus está distante e para um tempo futuro, talvez depois da morte. Além disso, sempre nos disseram que não somos dignos do Reino e temos que trabalhar, sofrer, suar para recebê-lo.

Estas últimas duas afirmações são completamente falsas.


É verdade que muitas vezes não sabemos para onde olhar e nos sentimos perdidos, sem rumo. Ou ainda, diante de tantas portas, não sabemos qual abrir. O fato é que a porta que conduz à sala do banquete está aqui diante de nós, agora, neste momento da nossa vida. Não precisamos fazer nada mais do que abrir os olhos e nos firmar no presente para ver o Senhor nos fazendo o convite: "Vinde, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo!" (Mt 25,34). O momento presente é a porta que exige de nossa parte o reconhecimento e aceitação (a docilidade) de acolher a vontade de Deus, o Seu convite, conforme nos é apresentada neste momento da vida em que nos encontramos.


Mas, a dúvida plantada em nós, nossas crenças interiores, faz com que nos questionemos: como pode uma coisa tão profunda e tão grandiosa ser tão simples?

É simples porque Deus, em sua infinita misericórdia, sabe que precisamos que seja simples. Então, Ele fez com que fosse simples e se fez simples para que possamos reconhecê-lo, aceitá-lo e acolhê-lo.

Como gostamos de complicar as coisas! Complicá-las a ponto de ficarmos confusos e cegos para a simplicidade absoluta da vida espiritual. A religião costuma complicar as coisas com regras, procedimentos e requisitos. Não temos que "sofrer" e padecer numa vida repleta de dor e pranto para alcançar a salvação, como nos ensinaram e ensinam por aí... A salvação não é alcançada por esforço próprio ou ação puramente humana, é graça divina! Só há uma coisa que podemos fazer para sermos salvos: crer e aderir (At 16,31), além de praticar, obviamente, tudo aquilo que dizemos crer. Todo o resto é teologismo disfarçado de Evangelho.


Uma outra verdade é que o Reino dos Céus está aqui e agora, dentro de nós, entre nós e ao nosso redor (Lc 17,20-21). Não olhamos para o futuro ou para o passado para encontrá-lo. Não podemos escapar disso, embora possamos escolher ignorá-lo. A união com Deus é o fundamento primário de toda a existência, e a Encarnação revela que isso é verdade.


Eu gosto de um poema de Elizabeth Barrett Browning, chamado “Aurora Leigh”. Este é o meu trecho favorito:


A Terra está repleta de céu,

E cada simples arbusto arde em chamas com Deus:

Mas só quem vê, tira os sapatos,

O resto senta-se em volta dela e colhe amoras-pretas.


A metáfora de “só quem vê tira os sapatos” significa remover as vendas que nos impedem de ver Deus em todas as coisas. “Ver” significa abrir-se para receber tudo o que cada momento proporciona, e, se olharmos bem, veremos que Ele está conosco sempre e para sempre. Quem vê mas não enxerga, fica às voltas comendo qualquer coisa que lhes é servida.


Outra coisa que a maioria de nós aprendeu é que não somos dignos do amor de Deus. A verdade é que a dignidade não é necessária, pois “enquanto éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8). A Encarnação destrói a relevância do merecimento. O Filho de Deus assumiu a natureza humana. Está feito. Está terminado. Nós fomos deificados. Não é o nosso valor que importa, mas o dEle.

A dignidade não é o ponto. Vontade é. Vontade de se livrar dos fardos da culpa e da vergonha e trocá-los por alegria. Vamos trocar nossos medos por gratidão. Deus nos abraçou. Vamos retribuir o abraço. Porque somos livres (também um presente), a escolha é nossa.

Tudo o que Jesus tocou, Ele santificou, de modo que toda a vida humana se tornou sacramental no mais amplo e melhor sentido da palavra. O próprio tempo é santificado. A vida comum torna-se um acontecimento extraordinário, uma forma, um meio e uma ferramenta para entrar na sala do banquete. Onde quer que estejamos, com quem quer que estejamos, do jeito que estivermos, quem formos, o que quer que estejamos fazendo... é uma porta para o céu.


Observemos que todos os primeiros convidados deram desculpas diversas para se esquivar de apreciar o banquete. Então o dono da casa convidou outra categoria de pessoas, pessoas que provavelmente se sentiam ainda menos dignas do que as anteriores. Está escrito no v. 23 que desta vez o servo teve que obrigar, forçar as pessoas que encontrar nas ruas a vir para a festa. "Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha casa fique cheia".

Obviamente, não é a questão de abrigá-los pela força física ou por qualquer outro meio que restringisse sua liberdade. Esta palavra 'obrigar' indica que o servo terá que mostrar um grande poder de persuasão para convencê-los a atender ao chamado. Essas são pessoas que têm tal sensação de humilhação que não conseguem imaginar como podem ser o objeto da misericórdia de Deus, ou, no caso, do convite para tal banquete. São pessoas machucadas pelas situações da vida, pelos dilemas sociais, culturais, pelos preconceitos e exclusões de sua própria família, pelas instituições, pelos requisitos desta ou daquela tradição religiosa...

Você diz a eles: 'Venham, Deus os convida para entrar em seu reino'. E eles dirão: 'Não, isso é impossível. Deus não acolhe pessoas como eu. Eu não sou digno disso.' Portanto, você tem que fazer com que eles acreditem que é possível. Você deve pegá-los pela mão, gentilmente, mas com firmeza, e conduzi-los ao banquete. 'Você tem que acreditar. Deus não exclui ninguém, nenhum dos seus filhos'.

Quanto mais nos sentimos indignos da graça de Deus, mais perto estamos de seu perdão. Indigno é aquele que acredita ser bom o suficiente para se valer dos favores divinos. Só quem se humilha diante de Deus é verdadeiramente digno de sua misericórdia: "Pois todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado." (Mt 23,12).


Esta parábola de Jesus também nos remete ao Banquete Eucarístico, à Divina Liturgia, ao Divino Corpo e Sangue de Jesus no pão e no vinho eucarísticos. Ao Reino de Deus que já está em nosso meio. A Eucaristia é essa manifestação real e concreta da qual todos somos chamados à tomar parte. Não este ou aquele, esta ou aquela... mas todos e todas. Em nossa Comunhão de Igrejas, no item 7 de seus 'Usos, Orientações e Diretrizes', consta o seguinte: "Qualquer cristão batizado em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e confessando que os santos Dons Eucarísticos são verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo pode ser acolhido na comunhão eucarística." Obviamente que só come e bebe quem acredita que o que está sendo servido é alimento salutar para a manutenção da vida. Nesse sentido, todo aquele que crer no Alimento espiritual servido, independente de onde venha ou de como está, pode tomar parte para ser santificado, abençoado, fortalecido, enriquecido com estes Dons, aliás, o próprio Dom: Cristo Jesus, Ele mesmo.


Meus irmão, a Encarnação é o casamento entre o céu e a terra, Deus e a humanidade, a matéria e o espírito, a vida comum torna-se vida divina. Vamos abrir os olhos, aceitar o convite do Senhor, tirar os sapatos e tomar lugar no banquete.

Não deixemos que o medo, a angústia, a dúvida, ou os nossos traumas nos privem da alegria de ver o Senhor nas coisas cotidianas.

Somos todos "pobres, aleijados, cegos e mancos" na vida espiritual, por isso carecemos da Graça Divina para nos enriquecer, nos carregar, nos conduzir e iluminar a vista para percebermos o Reino dos Céus aqui e agora.


Não podemos esquecer a conclusão da parábola a qual expressa toda a severidade de Deus para com aqueles que se desculparam. "Nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete’" declara Jesus no v. 24. Se assim é, é porque não quiseram participar e não porque Deus os excluiu da festa. Ninguém pode entrar no céu senão a convite de Deus e a sua generosidade é tal que convida a todos. Mas é possível recusar seu convite. Se o ser humano não pode salvar a si mesmo, ele pode, não obstante, condenar-se recusando-se a estar no grande encontro da salvação.


São João de Saint-Denis, no final de sua homilia proferida no dia 7 de junho de 1953, sobre esta mesma parábola, encerra com as seguintes palavras: "É um pedido mais do que um sermão que faço a vocês: odeie a dispersão, peça a Deus que lhes dê a simplicidade da vontade, a unidade interior que nos deixará prontos para subir ao banquete do Mestre. A Ele seja a glória para todo o sempre. Amém."



🙏 Rezemos

Nós te damos graças, Senhor, pelo alimento da vida eterna, e te suplicamos: concede-nos que possamos crescer em comunhão contigo e com nossos irmãos e irmãs, ó tríplice Luz, único Deus, pelos séculos dos séculos. Amém.

Oração conclusiva, post-comunion, da Divina Liturgia Galicana.



Referências

BROWNING, Elizabeth Barrett. Aurora Leigh. New York: OUP, 2008.

SAINT-DENIS, João de [Eugraph Kovalevsky]. Homélies III. Paris: Éditions de Forgeville, 2020.

#Oração #DivinaLiturgia

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