7º Domingo depois de Pentecostes
- Fraternidade São Nicolau

- 12 de jul.
- 5 min de leitura
A pesca milagrosa
PRÆLEGENDUM (Sl 64/65)
A vossa bênção enche a terra de abundância.
As colinas se enfeitam de alegria,
e os campos, de rebanhos;
nossos vales se revestem de trigais:
tudo canta de alegria!
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre,
e pelos séculos dos séculos. Amém.
EVANGELHO de Jesus Cristo, segundo São Lucas 5,1 à 11
Certo dia Jesus estava na praia do lago da Galileia, e a multidão se apertava em volta dele para ouvir a mensagem de Deus. Ele viu dois barcos no lago, perto da praia. Os pescadores tinham saído deles e estavam lavando as redes. Jesus entrou num dos barcos, o de Simão, e pediu que ele o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se e começou a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, Jesus disse a Simão:
— Leve o barco para um lugar onde o lago é bem fundo. E então você e os seus companheiros joguem as redes para pescar.
Simão respondeu:
— Mestre, nós trabalhamos a noite toda e não pescamos nada. Mas, já que o senhor está mandando jogar as redes, eu vou obedecer.
Quando eles jogaram as redes na água, pescaram tanto peixe, que as redes estavam se rebentando. Então fizeram um sinal para os companheiros que estavam no outro barco a fim de que viessem ajudá-los. Eles foram e encheram os dois barcos com tanto peixe, que os barcos quase afundaram. Quando Simão Pedro viu o que havia acontecido, ajoelhou-se diante de Jesus e disse:
— Senhor, afaste-se de mim, pois eu sou um pecador!
Simão e os outros que estavam com ele ficaram admirados com a quantidade de peixes que haviam apanhado. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão, também ficaram muito admirados. Então Jesus disse a Simão:
— Não tenha medo! De agora em diante você vai pescar gente.
Eles arrastaram os barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram Jesus.
Glória à Ti, Senhor! Glória à Ti!

HOMILIA
Mons. Jonas, exarca para o Brasil
Manaus, 12 jul. 2026
Queridos Irmãos e irmãs,
Hoje, neste 7º Domingo depois de Pentecostes, as Escrituras nos colocam diante de uma verdade fundamental: a presença de Deus não está contida em paredes ou rituais estáticos, fossilizados. A visão de Ezequiel (47, 1-10), que ouvimos na primeira leitura, é reveladora: do Templo brota uma água que, ao sair, torna-se um rio caudaloso (como os rios da nossa Amazônia), capaz de dar vida onde antes havia apenas deserto. Essa é a imagem perfeita da Liturgia.
A Liturgia que celebramos aqui não termina ao cruzar as portas da igreja. Pelo contrário, ela é apenas a nascente, o vertedouro, o "olho d'água", cuja fonte é o próprio Deus. O que vivemos hoje, os cânticos, a escuta das Escrituras, as orações, a Comunhão, deve transbordar para a "liturgia da vida". Se a água de Ezequiel não flui para o cotidiano, ela se torna estagnada.
Muitas vezes, pensamos na Liturgia como um conjunto de ritos, gestos e palavras que repetimos no domingo. Mas, etimologicamente, a palavra Liturgia (leitourgia, do grego) significa 'serviço público' ou 'obra do povo'. Na Grécia antiga, não era algo sagrado; era quando um cidadão colocava seus recursos e seu trabalho a serviço da comunidade, para o bem de todos. Quando trazemos isso para a nossa fé, a Liturgia ganha um sentido transformador: ela é a nossa capacidade de colocar a própria vida a serviço de Deus e dos irmãos.
Por isso, quando dizemos que a Liturgia deve transbordar para a vida, queremos dizer que o encontro com Deus aqui, no altar, deve nos transfigurar e transbordar para o serviço que prestaremos lá fora. Se a nossa vida não se torna um serviço de amor ao próximo, a Liturgia corre o risco de virar apenas um teatro. A verdadeira Liturgia é aquela que acontece no domingo e se prolonga na segunda-feira, quando o nosso trabalho, o nosso estudo e o nosso cuidado com o outro se tornam, eles mesmos, uma oferta viva a Deus.
A verdadeira espiritualidade, como nos ensinava São João de Saint-Denis [Eugraph Kovalevsky], é aquela que "retorna às fontes", à uma busca pela essência que purifica nossas ações presentes para que possamos irrigar a nossa existência diária.
No Evangelho de Lucas (5, 1-11), vemos Pedro, um pescador experiente, cansado pelo esforço inútil da noite. Ele entende de redes, de barcos e de cansaço. Contudo, é na ordem de Cristo – "lança as redes" – que a abundância acontece. Às vezes, em nossa vida profissional e acadêmica, nos sentimos como Pedro: trabalhamos, nos esforçamos, buscamos resultados, mas, por vezes, a aridez parece nos dominar.
A lição de hoje é um convite ao discernimento: quando lançamos as redes em nome da nossa própria vontade ou apenas pelas métricas do mundo, o barco permanece vazio. Quando, porém, lançamos as redes sob a luz da Palavra de Cristo, quando alinhamos a nossa vontade e a nossa métrica às de Cristo, a "bênção que enche a terra de abundância" se torna visível (Sl 64, 10).
Os Apóstolos, em Atos (5, 12-17), não curavam apenas pelo toque; eles eram extensões da presença de Cristo. Eles viviam o que poderíamos chamar de "liturgia da liturgia": a extensão do Sagrado para o lugar do sofrimento e da necessidade humana. Não havia separação entre o que faziam no Templo e o que faziam nas ruas.
Portanto, meus irmãos, que a nossa vida seja o leito desse rio que Ezequiel viu. Não busquemos a espiritualidade para nos refugiarmos do mundo, mas para habitá-lo com um coração que conhece a fonte. Que a excelência que buscamos em nossas carreiras seja, na verdade, uma forma de "lançar as redes", ou a semente, com confiança, sabendo que é o Mestre quem multiplica o fruto.
Que possamos viver esta semana de forma a que, por onde passarmos, a água que brota do nosso encontro com Deus possa curar, animar e dar vida a quem encontrarmos. Pois a Liturgia, quando vivida, deixa de ser um formalismo para se tornar um modo de existência, uma eterna e profunda ação de graças.
A Ele seja o louvor, a honra e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Bendito sois, Senhor, Deus de nossos pais,
digno de ser louvado, glorificado e exaltado eternamente.
Bendito o vosso Nome santo e glorioso,
digno de ser louvado e exaltado eternamente.
Bendito sois em vosso templo santo,
digno de supremo louvor e de glória eternamente.
Bendito sois no trono de vosso Reino,
digno de supremo louvor e de exaltação eternamente.
Bendito sois Vós, cujo olhar sonda os abismos
e que estais sentados sobre os Querubins,
digno de louvor e de glória eternamente.
Oração do Benedicite, da Divina Liturgia de São Germano de Paris





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