Grupo de Estudos da Escola de Filocalia

Neste domingo, 13/06, retomamos as atividades do nosso Grupo de Estudos promovido pela Escola de Filocalia, atividade de nossa Fraternidade.


Estudamos o texto do filósofo grego e teólogo ortodoxo, Christos Yannaras, "O realismo ontológico de nossas esperanças no futuro: Conclusões de São Máximo, o Confessor" (The Ontological Realism of our Hopes Hereafter: Conclusions from St. Maximus the Confessor’s Brief References), traduzido e explanado pelo nosso Irmão Felipe de Salvador, teólogo (Institut de Théologie Biblique, França), professor de estudos religiosos e cristãos, especialista em literatura e línguas antigas. Irmão Felipe é Seminarista e candidato às Ordens Sacras no Seminário Pastoral de nossa Igreja.


Acompanhe um trecho do texto que estudamos:


"O que chamamos “pessoa” [πρόσωπον] é a hipóstase lógica (isto é, pertencente ao Logos) de cada homem “à imagem de Deus”, de cada realização hipostática da natureza humana. A pessoa humana existe hipostasiando (constituída como hipóstase) as energias criadas da natureza humana criada, ela as hipostasia “com propriedades individuais”, isto é, com alteridade mórfica (distinta) e com alteridade ativa (livre de predeterminações). Dito isso, então, surge a pergunta: após a morte física, após o desligamento completo das energias criadas da natureza humana criada, quais energias a hipóstase humana hipostasia para que possa constituir uma pessoa existente, um ser realmente existente? São Máximo responde da seguinte forma: depois de nossa morte, a hipóstase hipostasia não mais a natureza criada, mas a Graça incriada. O homem não existe “por natureza”, mas “pela graça”; sua existência é realizada não por meio das energias criadas de uma natureza criada, mas com as energias de uma existência dada como um presente por Deus, com as energias não-criadas da Graça divina.

Com sua proposta interpretativa ontológica, Máximo oferece-nos a possibilidade de uma interpretação ontológica também do inferno que normalmente é entendido através de padrões religiosos, isto é, jurídicos e psicológicos. Na perspectiva de Máximo, Deus não cria nem impõe o inferno como punição. Deus é apenas amor e se entrega a cada ser humano unindo-se a ele “para a eternidade, para a imortalidade”. Se a liberdade do homem desenvolveu nele uma “qualidade de disposição” [ποιότητα διαθέσεως] capaz de responder à Graça de sua união com Deus, então a união será para aquele que se une a Deus um “prazer inconcebível” [ἀνεννόητος ἡδονή]. Se o homem recebe esta Graça que dá vida, mas não pode responder a ela, ele não adquiriu a preparação e a capacidade de respondê-la, logo, sua união com Deus será um “sofrimento indizível” [ἀνεκλάλητος ὀδύνη], um inferno.

“A qualidade de disposição de todos” [Ἡὑποκειμένη ἑκάστῳ ποιότητα τῆς διαθέσεως] que julgará a união do homem com Deus após a morte como um “prazer inconcebível” ou como um “sofrimento indizível e ingerível” é uma segunda perspectiva ontológica de São Máximo que é crucial para nossas esperanças. Ele, porém, não analisa o conteúdo desta “qualidade” que determinará a “disposição” – e por disposição ele entende aqui a nossa vontade de nos dedicarmos e doarmos, a liberdade que temos para dar uma resposta positiva ou negativa, a auto-oferta ao labor que é oferecido por Ele, por Deus.

No entanto, esta “qualidade” não pode ser traduzida em uma numeração logística e uma oposição entre boas ações e pecados já está compreensão jurídica grita desde suas raízes religiosas (e não eclesiais). Uma abordagem eclesial seria, talvez, ver nesta “qualidade de disposição” uma preparação que não vem “por meio da observação” (Lucas 17,20) e que provavelmente encontra sua ilustração mais característica no “lembre-se de mim” do ladrão pouco antes de seu último suspiro. A “qualidade de disposição” do ladrão o torna participante do “paraíso” no mesmo dia, sem exigir o menor mérito."

(YANARRAS, 2013, p. 6-7)


📖 Com a máxima do Evangelho: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8,32), consideramos fundamental o estudo, a meditação, a oração e a partilha como meios de ascese em busca da theosis.


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Da esquerda: nosso bispo, Mons. Jonas; bispo Renato da Fraternidade Amigos do Evangelho; Tiago; Irmão Felipe; Luis; Padre Nélio; Daniel; Mima e Sérgio.



‍🙋🏽‍♂️ Sobre o autor

Christos Yannaras (grego: Χρήστος Γιανναράς; nascido em 10 de abril de 1935) é um filósofo grego, teólogo ortodoxo oriental e autor de mais de 50 livros que foram traduzidos para muitas línguas. Ele é professor emérito de filosofia na Universidade Panteion de Ciências Sociais e Políticas, Atenas.

Estudou teologia na Universidade de Atenas e filosofia na Universidade de Bonn (Alemanha) e na Universidade de Paris (França). Recebeu um Ph.D. da Faculdade de Teologia da Universidade Aristóteles de Thessaloniki (Grécia). Ele também possui um Ph.D da Faculté des Lettres et Sciences Humaines da Sorbonne-University de Paris IV. Foi nomeado Doutor em Filosofia, honoris causa, pela Universidade de Belgrado, St. Vladimir's Seminary, Nova York, e a Holy Cross School, Boston. Foi professor visitante nas universidades de Paris (Faculdade Católica), Genebra, Lausanne e Creta. Foi Professor de Filosofia na Universidade Panteion de Ciências Sociais e Políticas de Atenas, de 1982 a 2002. É membro eleito da Sociedade Helénica de Autores.


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