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6º Domingo depois da Páscoa

A Glória do Filho do Homem



PRAELEGENDUM (Sl. 26, 7-9)

Ouve, Senhor, a minha vós, com que clamo a ti, aleluia.

O meu coração fala-te, a minha face busca-te,

procuro, Senhor, a tua face.

Não escondas de mim a tua face, aleluia, aleluia.

O Senhor é a minha luz e minha salvação,

a quem temerei?



HINO

O Bom Pastor subiu

À direita do Pai,

Mas não pode esquecer

O pequeno rebanho.


Dos esplendores eternos

Desce o fogo profético

Consagrando os Apóstolos

Arautos do Evangelho.


Vinde, Espírito Santo,

Com os divinos dons,

Tornar o povo fiel

Templo da vossa glória.


Luz da Sabedoria,

Revelai o mistério

Da Trindade Santíssima,

Fonte do eterno amor.


📖 EVANGELHO de Jesus Cristo, segundo São João 17, 1-8

Assim falou Jesus; depois, levantando os olhos ao céu, disse: "Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho, para que teu Filho te glorifique a ti, e, pelo poder que lhe deste sobre toda a criatura, dê a vida eterna a todos os que lhe deste. Ora a vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Glorifiquei-te sobre a terra; acabei a obra que me deste a fazer. E agora, Pai, glorifica-me junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha em ti, antes que houvesse mundo. Manifestei o teu nome aos homens, que me deste do meio do mundo. Eram teus, e tu mos deste; e guardaram a tua palavra. Agora sabem que todas as coisas que me deste, vêm de ti, porque lhes comuniquei as palavras que me confiaste; eles as receberam, e conheceram verdadeiramente que eu sai de ti e creram que me enviaste.


Glória à Ti, Senhor! Glória à Ti!


Cristo em Majestade. Iluminura do século XIII, Inglaterra, Abadia de Peterborough.
Cristo em Majestade. Iluminura do século XIII, Inglaterra, Abadia de Peterborough.

HOMILIA

Mon. Jonas, 17/05/2026

 

Amados irmãos e irmãs, Cristo Ressuscitou, Aleluia!


Estamos no sexto domingo depois da Páscoa. O tempo corre e a liturgia de hoje nos coloca em umbral, em um momento de transição. Diante de nós, o Círio Pascal ainda brilha com a sua luz suave. Mas hoje, pela última vez neste ciclo, testemunharemos o seu apagamento. Para quem olha com os olhos do mundo, a extinção de uma chama evoca o fim, a ausência, a escuridão. Mas para nós, iniciados nos mistérios do Senhor, este gesto litúrgico carrega um significado radicalmente oposto.

 

O tema deste domingo é “A Glória do Filho do Homem”. E a chave para compreender o que é a glória de Deus nos é dada por Jesus no Evangelho de João: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique” (Jo 17,1). Se perguntarmos à alguns dos nossos amigos e colegas o que significa "glória", alguns nos falarão de aplausos, reconhecimento, curtidas nas redes sociais, de poder econômico, de visibilidade. A glória do mundo é um holofote que busca anular as sombras exteriores.

 

Mas a glória de Cristo, a glória teândrica, divino-humana, manifesta-se no esvaziamento. Na epístola aos Filipenses, ouvimos o hino mais belo sobre a nossa fé: Cristo “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fl 2,7). São João de Saint-Denis ensinava que a glória de Deus não esmaga a nossa precariedade (o que é instável, frágil, incerto); ela a habita. Por isso kenose, este esvaziamento amoroso de Deus, é o que permite à nossa natureza frágil ser tocada pela Theosis. Deus se faz pequeno para que nós possamos crescer. A verdadeira grandeza não está em reter o poder, mas na capacidade de se dar por amor.

 

No nosso cotidiano, somos tentados a viver na ansiedade de preencher vazios. Queremos preencher a nossa solidão com barulho, a nossa insegurança com o consumo, o nosso cansaço com o ativismo. Esquecemos que o próprio Deus escolheu o esvaziamento para nos salvar. Quando nos esvaziamos do nosso egoísmo, das nossas certezas e do desejo de controlar a vida dos outros, abrimos espaço para que a glória invisível de Cristo resplandeça em nossa precariedade.

 

O Salmo 46 nos convida a celebrar: “Batam palmas, todos os povos, aclamem a Deus com vozes de alegria”. Essa alegria não é uma euforia ingênua, boba, que ignora os boletos a pagar, as dores do corpo, as crises familiares ou os problemas do mundo. É a alegria mística de saber que a soberania de Deus já venceu o abismo da morte e das trevas.

 

E aqui tocamos o mistério dos Atos dos Apóstolos. Paulo encontra discípulos em Éfeso que conheciam apenas o batismo de arrependimento, pregado por João Batista, mas que ainda não haviam recebido o Espírito Santo. Ao impor-lhes as mãos, o Espírito irrompe sobre eles, e o que era apenas uma doutrina moral converte-se em labareda viva.

 

Essa transformação radical da nossa fraqueza em presença divina nos recorda um dos relatos mais belos dos Padres do Deserto. O Abba José recebeu a visita de um jovem monge que lhe perguntou o que mais poderia fazer além de jejuar, rezar e guardar o silêncio. O ancião, então, levantou-se, estendeu as mãos para o céu, e seus dedos tornaram-se como dez lâmpadas de fogo. Voltando-se para o discípulo, ele disse: “Se você quiser, pode se transformar inteiramente em fogo”.

 

Meus irmãos, é exatamente essa transformação em fogo que hoje celebramos na gloriosa Solenidade da Ascensão de Nosso Senhor. Jesus eleva-se aos Céus e retorna para o Pai, assentando-se à Sua direita. Mas Ele não nos deixa órfãos. Como ensinava São João de Saint-Denis, a Ascensão não é uma despedida ou uma separação espacial, mas a interiorização da presença de Cristo em nós. Ele retira a Sua carne visível dos nossos olhos para poder habitar, por este mesmo Espírito de Fogo, o mais íntimo de nossas almas.

 

Por isso, o apagamento do Círio Pascal que faremos hoje não significa que a luz de Cristo está nos deixando. Pelo contrário. Significa que o tempo da pedagogia visível terminou. A chama externa apaga-se porque a dinâmica da Ascensão se completará no Pentecostes: Cristo sobe para que o Espírito desça, e assim, nós passemos a ser o Círio Pascal do mundo. A luz que estava concentrada e restrita àquela cera deve agora habitar, expandir-se e queimar nos vossos corações. (Por isso cada um de nós vai acender sua vela no Círio. O Círio representa Cristo, as velas, nós mesmos).

 

Ao sairmos daqui hoje, para voltarmos às nossas casas, aos nossos trabalhos, às nossas rotinas acadêmicas e profissionais, lembremo-nos: não levamos uma memória de Cristo; levamos a Sua presença viva. A glória do Filho do Homem deve ser vista no modo como nós tratamos o cônjuge, no acolhimento ao irmão necessitado, na honestidade do nosso trabalho e na mansidão com que respondemos às ofensas.

 

Não tenhamos medo do esvaziamento. Não tenhamos medo das nossas fragilidades. O fogo que purifica e ilumina já foi plantado em cada um nós. Que a alegria da Ressurreição permaneça como uma brasa viva sob as cinzas do dia a dia, esperando o sopro divino de Pentecostes.

 

Cristo Ressuscitou! Verdadeiramente Ele Ressuscitou! Aleluia!



🙏 ORAÇÃO

Deus onipotente,

fazei-nos exultar em santa alegria e em filial ação de graças,

porque a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança:

tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça,

para aí nos chama como membros do seu Corpo.

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo,

pelos séculos dos séculos. Amém.


 
 
 

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